terça-feira, 8 de julho de 2014

Uma linguagem humana

VOCÊ NUNCA ESTÁ SÓ


Você nunca está só. Sempre a seu lado
Há um pouquinho de mim pairando no ar.
Você bem sabe: o pensamento é alado...
Voa como uma abelha sem parar.

Veja: caiu a tarde transparente.
A luz do dia se esvaiu...
Uma sombra alongou-se a seus pés mansamente...
                Esta sombra sou eu.

O vento, ao pôr-do-sol, num balanço de rede,
Agita o ramo e o ramo um traço descreveu.
Este gesto de ramo na parede
                Não é do ramo: é meu.

Se uma fonte a correr chora de mágoa
No silêncio da mata, esquecida de nós,
Preste bem atenção nesta cantiga da água:
                A voz da fonte é a minha voz.

Se no momento em que a saudade se insinua
Você nos olhos uma gota pressentiu,
Esta lágrima, juro, não é sua...
                Foi dos meus olhos que caiu...

                                               (Olegário Mariano)

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Atravessar a rua.

É noite.
duas luas na esquina,
dez e meia no relógio.
desço da locomotiva insana,
sangrando cansaços do dia
com minha visão de vertigem vazia.

Triste condição.
dou um passo á frente.
Avenida Morte.
conto com a sorte,
fortalezas amarelas,
curto espaço, passarelas.

Terceira margem,
aqui estou.
cada segundo é um novo mundo.
meu corpo é frio,
não de medo:
de vazio.

Num piscar, faróis acendem.
descuido, tropeço.
e o vento me cobre
e o medo me cabe,
em sua dúvida insana.

Ao redor, ninguém.
bem acima, a lua.
na esquina vazia, a outra não mais.
Sou poeira
de piche, de rua.
desnuda memória.

Sou noite agora.
meu tempo é minha hora.
e o brilho latente da estrela
de mais uma poeira falecida.
...
Quantas lembranças,
quantos desejos cabem
em dois segundos de vida?

                                       A.M.


domingo, 12 de janeiro de 2014

O AMOR

somos um livro

está tudo escrito
no dna do espírito
nas cartas astrológicas
nos meridianos dos corpos
na íris dos olhos
no alfabeto do infinito

nosso contrato de risco
é escapar ao inaudito
(as garras do hipogrifo)
e escrever c/fogo e luz
no espaço em branco dos capítulos
o nosso mito

                                           (Luís Augusto Cassas)